Academias não representam risco adicional de pegar COVID-19?

Alguns sites, blogs e perfis no Instagram ligados de alguma forma a promoção de atividades físicas, vem noticiando e endossando um estudo realizado por pesquisadores Noruegueses, o qual, conclui que academias não representam risco adicional de pegar COVID-19. Apesar desta notícia não ser falsa pois, #de fato, está baseada em um estudo realizado por cientistas noruegueses [1], a conclusão tanto destas notícias quanto do estudo em questão, é, no mínimo, limitada. Uma vez que, alguns fatos e observações importantes não foram levadas em consideração e/ou não receberam o devido destaque, principalmente, em muitas destas publicações que estão divulgando essa pesquisa em questão. Então, para explicar isso melhor, vamos aos 3 principais #fatos que demonstram o porquê este estudo é bastante limitado!

(fato #1) É importante dizer que este estudo feito por Michael Bretthauer e seu grupo de pesquisa da universidade de Oslo, foi divulgado em versão “pré-publicada”, ou seja, é um estudo que ainda não foi revisado por outras(os) cientistas e, portanto, trata-se de uma “versão de rascunho” do que seria um artigo científico em seu modelo final, isto é, passado pelo processo de revisão por pares e desse modo possuindo maior rigor técnico, o que não foi o caso [1];

(fato #2) Durante o período de realização do estudo, tanto a Noruega como a cidade de Oslo (capital do país e cidade onde foi realizada a pesquisa) apresentavam números de novos casos da COVID-19 muito baixos [2], fruto de um plano nacional e sincronizado de lockdown (restrição máxima da circulação de pessoas) e demais medidas sanitárias iniciadas em 12 de março. Desta forma, como o estudo ocorreu entre 22 de maio a 9 de Junho, as pessoas do grupo que receberam autorização para ir até as academias, já estavam sob baixo risco de infecção pelo SARS-CoV-2 no território norueguês, talvez, baixo o suficiente para que não fosse possível detectar uma diferença significativa entre o grupo de pessoas que não foram até as academias (grupo controle) em comparação ao grupo de pessoas que foram [2], limitando assim a conclusão do estudo;

(fato #3) Outra limitação desta pesquisa que deve ser destacada, é o fato de que apenas 1 das 3.016 pessoas que fizeram o exame para o novo coronavírus (80,5% das pessoas incluídas no estudo), testou positivo para o SARS-CoV-2. E, apesar desta pessoa pertencer ao grupo de indivíduos que recebeu autorização para frequentar as academias (especialmente abertas para o estudo em questão), a mesma não frequentou nenhuma das academias durante o período de 16 dias antes da realização dos exames. Logo, não foi possível detectar nenhuma pessoa infectada pelo novo coronavírus dentro do grupo de pessoas que frequentaram as academias. Sendo assim, como seria possível afirmar, com rigor científico, que as academias são locais seguros e não representam risco adicional de infecção pelo novo coronavírus mesmo quando ocorre treino intensivo, se não havia nenhum indivíduo infectado pelo SARS-CoV-2 nesses ambientes durante o período de estudo? Simplesmente, não é possível fazer esta afirmação com base nesta pesquisa!

Além destes três principais fatos aqui destacados, vale lembrar que diversos estudos apontam no sentido de que o SARS-CoV-2 tem a capacidade de se manter estável e se disseminar através de aerossóis (partículas muito pequenas) que liberamos durante a respiração e a fala [3, 4, 5]; dessa maneira, sendo uma importante via de contágio, sobretudo, em locais com muitas pessoas e pouca ventilação, o que caracteriza o ambiente de muitas academias. Isso, sem considerarmos o fato de que durante a execução de muitos dos exercícios realizados nesses ambientes, aumentamos nosso ritmo respiratório e, consequentemente, a liberação de aerossóis [6, 7, 8]! Ou seja, muito provavelmente representando um risco adicional, mesmo adotando medidas sanitárias mais rígidas, como o distanciamento social (afastamento mínimo de 1 ou 2 metros de outra pessoa) e a limpeza frequente das superfícies nesses ambientes [3, 6].

Evidentemente, manter-se fisicamente ativo durante o isolamento social é fundamental para nossa saúde física e mental. No entanto, em um país como o nosso, de proporções continentais e, ainda, sem um plano nacional centralizado e sincronizado de contenção da disseminação do SARS-CoV-2, é pouquíssimo provável que as academias, bem como, qualquer ambiente com pouca ventilação e a circulação de muitas pessoas, seja seguro em nosso contexto. Por isto, é preocupante ver a disseminação de notícias como essas, baseadas em estudos ainda não revisados e distante da nossa realidade, como verdades concretas. Por este motivo, se tiver com dúvidas da veracidade e/ou das limitações das notícias e estudos propagados, conte o @covidverificado!

Por último, mas não menos importante, pensando justamente no valor dos exercícios físicos durante este difícil momento de distanciamento social para nossa saúde, a organização mundial da saúde (OMS) elaborou um conjunto de sugestões de atividades físicas que podem ser realizadas em casa, sem equipamento especial e com espaço limitado, que podem contribuir para a redução do comportamento sedentário e para o aumento dos níveis de atividade física durante o isolamento, confira no link: https://nacoesunidas.org/mantenha-se-fisicamente-ativo-durante-o-distanciamento-social-recomenda-oms/


Por Renato da Silva Cardoso em 16/07/2020.

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