COVID e tipo sanguíneo ABO

Você sabe porque temos tipos sanguíneos diferentes?


O seu tipo sanguíneo é definido pela presença ou ausência de proteínas na superfície das suas hemácias (células vermelhas do seu sangue responsáveis por transportar o oxigênio pelo seu corpo). Você pode ter a proteína A (e, portanto, ter o tipo A), a proteína B (tipo B), as duas ao mesmo tempo (tipo AB) ou nenhuma (tipo O).


O seu sistema imune produz anticorpos (moléculas) que reconhecem aquilo que é estranho ao seu corpo. No caso de uma infecção, como a pelo coronavírus, os anticorpos reconhecem proteínas virais. Mas isso também acontece com proteínas humanas que você, em particular, não tem, como a de tipo sanguíneo diferente do seu.


Tabela 1: Tipos sanguíneos ABO e os anticorpos presentes.


Quando algo estranho entra no seu corpo, o seu sistema imune produz anticorpos para ajudar a localizar e tentar eliminar aquilo. Isso é um mecanismo extremamente importante para defesa contra doenças, mas também leva à rejeição de doações de sangue e órgãos. É por isso que quando você doa ou recebe uma transfusão de sangue, precisa ser em relação a uma pessoa compatível com você, que não tenha anticorpos contra a sua proteína, mas não necessariamente do mesmo tipo que o seu.


No começo de 2020 começou a circular que o tipo sanguíneo A tinha mais risco de pegar a COVID-19. O que a ciência teve a dizer sobre o assunto?


Em março desse ano, um grupo chinês divulgou um estudo (1), uma pré-publicação analisando pacientes hospitalizados por COVID-19 em duas províncias, Wuhan e Shenzhen, sobre o qual já fizemos uma postagem, e você pode ler mais a fundo aqui https://www.covidverificado.com.br/post/tipo-sanguineo-e-a-covid-19. Em agosto, esse estudo foi aceito e publicado pela revista científica Clinical Infectious Diseases (Doenças Infecciosas Clínicas), tendo passado por revisões de outros cientistas e sem ter sofrido alterações drásticas. Essencialmente, observaram que, entre as pessoas diagnosticadas com COVID-19, a proporção de pessoas tipo A era maior do que a proporção de pessoas com tipo A na população saudável da região, e que a proporção de pessoas com tipo O doentes era menor do que a proporção de pessoas O saudáveis. Entretanto, não conseguiram analisar se os outros fatores de risco, como idade e hipertensão eram igualmente distribuídos.


Um segundo estudo chinês foi publicado em maio no Jornal Britânico de Hematologia, confirmando as observações do primeiro grupo, e acrescentando que nos pacientes estudados, a proporção de hipertensão e hepatites era maior nos pacientes tipo A do que no grupo controle (2). Embora em nenhum momento os estudos demonstrem uma relação de causalidade, isto é, que o tipo sanguíneo A leva à uma maior susceptibilidade ao SARS-CoV-2 (ou que o tipo O proteja), isso já foi suficiente para gerar receio na população.


Um estudo americano foi pré-publicado inicialmente em abril, e pode-se encontrar diversas variantes dele até a sua versão final, que foi aceita e publicada em novembro (3). Nele, foi avaliada a relação do tipo sanguíneo com infecção, intubação e morte por COVID-19 em pacientes de Nova York, sendo que suas análises levaram em conta a raça/etnia das pessoas, devido a distribuições sanguíneas distintas dependendo da ancestralidade. Eles encontram que o risco de infecção é menor em pacientes tipo O, e que uma vez infectados, o risco de intubação e morte é maior para os pacientes tipo AB.


Em junho foi publicado um estudo genético de pacientes da Itália e da Espanha (4) que não somente tiveram a presença viral confirmada por exame de PCR, como também necessitaram de alguma assistência respiratória (desde oxigênio suplementar até intubação e ventilação mecânica). Nele foram reportadas 2 mutações altamente relacionadas a COVID-19, uma delas no locus (lugar, posição) genético que define o tipo sanguíneo da pessoa. Esse estudo confirmou que, pelo menos na amostra populacional europeia estudada, o risco de obter COVD-19 era menor para pessoas tipo O do que para os outros grupos, e que o risco para pessoas tipo A era maior. O mecanismo por trás dessa susceptibilidade não é explorado em uma análise genética e o grupo ressalta poderia ser decorrente do grupo ABO em si, como a produção de anticorpos, ou com efeitos biológicos relacionados à variação encontrada, como produção de proteínas relacionadas à cicatrização, que é diferenciada dependendo do tipo sanguíneo.


Já em outubro uma revisão dos dados disponíveis é feita por Wu e seu grupo (5), que além de verificar os testes estatísticos realizados nos estudos originais, fazem uma análise própria, juntando e resumindo todos os dados publicados. Eles concluem que o risco de infecção é maior em pacientes A e menor em pacientes O, e embora não obtenham resultados considerados significativos estatisticamente, observam que a gravidade da doença tinha uma tendência a ser maior em pacientes AB e menor em pacientes O, e que o risco de morte era maior em A e em AB.


É importante ressaltar que esses estudos só teorizam qual poderia ser o mecanismo biológico por trás dessas tendências estatísticas, e que de forma nenhuma diminuem a importância de medidas preventivas como o uso de máscaras e distanciamento social para todas as pessoas.


Por Letícia Kogachi e Taís Matozo em 20/12/2020.

Referências:


1) ZHAO, Jiao et al. Relationship between the ABO Blood Group and the COVID-19 Susceptibility. Clinical Infectious Diseases, 2020.


2) LI, Juyi et al. Association between ABO blood groups and risk of SARS‐CoV‐2 pneumonia. British journal of haematology, 2020.


3) ZIETZ, Michael; ZUCKER, Jason; TATONETTI, Nicholas P. Associations between blood type and COVID-19 infection, intubation, and death. Nature communications, v. 11, n. 1, p. 1-6, 2020.


4) SEVERE COVID-19 GWAS GROUP. Genomewide association study of severe Covid-19 with respiratory failure. New England Journal of Medicine, v. 383, n. 16, p. 1522-1534, 2020.


5) WU, Bing-Bing et al. Association between ABO blood groups and COVID-19 infection, severity and demise: A systematic review and meta-analysis. Infection, Genetics and Evolution, v. 84, p. 104485, 2020.

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