A COVID-19 é apenas uma doença trombótica e não uma pneumonia, estamos tratando errado a doença?

Nos últimos dias vem circulando pelas redes sociais textos, vídeos e mensagens que juram (sempre em um tom muito alarmante) ter a resolução da COVID-19: “a doença não é uma pneumonia, e sim, coagulação intravascular disseminada (trombose)! Estamos tratando erroneamente a COVID-19 com UTIs e ventilação mecânica!”

No entanto, infelizmente, tudo não passa de uma grande distorção dos #fatos e a construção de mais uma #fakenews! Então, como nós do @covidverificado trabalhamos com fatos, vamos a eles:

Algumas das notícias falsas afirmam que patologistas italianos, após realizarem autópsias, teriam chegado à conclusão de que a COVID-19 seria uma doença de coagulação intravascular disseminada (CIVD) e não uma pneumonia. Realmente há um trabalho em formato pré-publicado (ainda não disponibilizado em uma versão final) na literatura científica [1], produzido por pesquisadores italianos, que relatam ter encontrado em 33 das 38 autópsias analisadas no estudo, a formação de trombos na microvasculatura (vasos pequenos) do pulmão de pacientes em estado crítico que faleceram em decorrência da COVID-19.

Porém, em nenhum momento os pesquisadores sugeriram que a COVID-19 seria exclusivamente uma doença trombótica (#fato1) e que, portanto, poderia ser tratada apenas com anticoagulantes, sem a necessidade de aparelhos de ventilação mecânica e leitos de UTIs, assim como afirma a #fakenews. Diferentemente disto, para além da formação de trombos, o estudo descreve outras condições achadas nos pulmões destes pacientes que faleceram devido a COVID-19 e todas, muito provavelmente, ligadas de alguma forma a pneumonia desenvolvida em decorrência da infecção dos pulmões pelo novo coronavírus, afinal, todos os pulmões analisados no estudo vieram de pacientes que apresentaram sinais clínicos e radiológicos de pneumonia intersticial (#fato2). Sem contar que, a CIVD é sempre secundária a uma doença de base! [2] Ou seja, é pouco provável que o novo coronavírus pudesse causar trombos sem estar ligado a um outro distúrbio e, neste caso, os estudos levam a crer que estão associados a pneumonia severa causada pelo SARS-CoV-2 (#fato3). É conveniente destacar que os autores do estudo em questão realmente chamam a atenção para o caráter, também, trombótico da COVID-19 e, por este motivo, sugerem potenciais benefícios a partir da utilização de anticoagulantes nos casos severos da COVID-19 (#fato4).

Nesta mesma linha de raciocínio, outros cientistas e médicos (dentre eles cientistas brasileiros!) vem produzindo resultados que também apontam para o caráter trombótico da COVID-19 em alguns (não em todos!) casos graves da doença e propõem a utilização de anticoagulantes, como a heparina, de maneira combinada aos demais cuidados dados a um paciente em unidade de terapia intensiva (UTI), dentre eles, junto a utilização da ventilação mecânica, por exemplo [3, 4]. Segundo estes cientistas, e o que indicam seus dados, a incorporação de anticoagulantes ao esquema de tratamento das formas severas da COVID-19, poderia aumentar os índices de sobrevivência dos pacientes críticos, bem como, diminuir o tempo de internação nas UTIs (#fato5). Contudo, estes resultados apesar de promissores, ainda estão em fase de estudo, sendo assim, precisamos aguardar!

Destacamos o nosso compromisso com a medicina baseada em evidências científicas, por este motivo, chamamos a atenção para o fato de que, infelizmente, apesar dos esforços de cientistas de todo o mundo, ainda não há tratamento específico, seguro e eficaz contra a COVID-19. Mas, por hora, uma boa maneira de ajudar é não compartilhando fake news como essas! Assim como o novo coronavírus, a desinformação pode ser letal e prejudicial à saúde das pessoas que podem acreditar nelas! Conte com a equipe do @covidverificado para verificar se é #fato ou #fake antes de compartilhar!


Por Renato da Silva Cardoso em 28/05/2020.


Fontes:


1. CARSANA, Luca et al, Pulmonary post-mortem findings in a large series of COVID-19 cases from Northern Italy, medRxiv, p. 2020.04.19.20054262, 2020.

DOI: https://doi.org/10.1101/2020.04.19.20054262;


2. TOSTES PINTÃ, Maria Carolina; FRANCO, Rendrik F., Coagulação intravascular disseminada, Medicina, v. 34, n. 3–4, p. 282–291, 2001. DOI: https://doi.org/10.11606/issn.2176-7262.v34i3/4p282-291;


3. TANG, Ning et al, Anticoagulant treatment is associated with decreased mortality in severe coronavirus disease 2019 patients with coagulopathy, Journal of Thrombosis and Haemostasis, n. March, p. 1094–1099, 2020. DOI: https://doi.org/10.1111/jth.14817


4. DOLHNIKOFF, Marisa et al, Pathological evidence of pulmonary thrombotic phenomena in severe COVID-19, Journal of Thrombosis and Haemostasis, n. March, 2020.

DOI: https://doi.org/10.1111/jth.14844.

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