Lopinavir/ritonavir para tratamento da COVID-19?


Por que a combinação dos medicamentos lopinavir/ritonavir são possíveis candidatos no tratamento da COVID-19?


O antiviral lopinavir/ritonavir, cujo nome comercial é KALETRA®, foi desenvolvido nos anos dois mil e é utilizado, até hoje, em combinação com outros medicamentos antirretrovirais para o tratamento da infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV). Os dois compostos são utilizados em conjunto para aumentar o tempo de duração do medicamento no plasma.


Como o medicamento atua?


A combinação de lopinavir/ritonavir atua na enzima protease (enzima que ajuda na montagem das partes do vírus), bloqueando sua ação e impedindo a produção de partículas virais (Figura 1).


Figura 1: Atuação do lopinavir/ritonavir durante a infecção por SARS-CoV-2. Após o contato com o vírus, (1) ele entra na célula do hospedeiro, (2,3) transfere seu código genético para o núcleo, (4,5) a célula incorpora o código genético do vírus ao seu para produzir novas cópias do RNA viral, (6) a célula passa a produzir novas partes do vírus, (7) a montagem dos novos vírus é inibida pela ação do medicamento, o que reduz a quantidade de vírus na célula infectada.


Em qual fase de testes para COVID-19 o medicamento se encontra?


Os testes desta combinação de medicamentos encontram-se na fase clínica, ou seja, em humanos. A seguir irei destrinchar um artigo publicado recentemente que testou o uso do lopinavir/ritonavir em pacientes acometidos pela COVID-19 na China.


Características do estudo:


  1. Estudo randomizado (separou-se os grupos de forma aleatória);

  2. Controlado;

  3. Não foi duplo cego (pesquisadores e pacientes sabiam do tratamento que estava sendo utilizado);

  4. Com grupo controle, porém sem grupo placebo (substância que não apresenta nenhum efeito ao organismo).


Grupos de pacientes:


  1. 199 pacientes (Hospital de Wuhan-China) que testaram positivo para SARS-CoV-2;

  2. Destes 199: 99 receberam lopinavir (400 mg)/ritonavir (100 mg), por via oral, 2x por dia, por 14 dias e receberam os cuidados intensivos padrão. Contudo, 3 foram a óbito dentro de 24 horas do começo do tratamento, restando 96 pacientes;

  3. 100 pacientes não utilizaram o medicamento testado, mas receberam cuidados intensivos padrão (pacientes controle);

  4. Os pacientes foram acompanhados durante 28 dias de internação.


Resultados:


Para avaliação da melhora clínica dos pacientes, foi utilizada uma escala que varia de 1 a 7, considerando:


O quadro 2 mostra alguns resultados obtidos em pacientes controle ou tratados com o medicamento.

Além disso, não encontraram diferenças entre os dois grupos com relação a:

  1. Terapia com uso de oxigênio;

  2. Duração da internação;

  3. Tempo do começo do estudo até o óbito dos pacientes;

  4. Carga viral ao longo da internação dos pacientes.

Contudo, observou-se que insuficiência respiratória, lesão renal aguda e infecção secundária foram mais frequentes em pacientes do grupo controle.


Efeitos colaterais:


46 pacientes do grupo tratado e 49 pacientes do grupo controle apresentaram efeitos adversos como náusea, desconforto abdominal, diarreia e gastrite;

14% dos pacientes tratados não completaram 14 dias utilizando lopinavir/ritonavir, por apresentarem fortes efeitos adversos descritos acima;

Outros efeitos colaterais podem ser citados, mas que não foram manifestados pelos pacientes, como: risco de dano hepático, pancreatite e erupções cutâneas.

 

Limitações do estudo:


  1. Não foi duplo cego, o que aumenta a chance de viés;

  2. A quantidade de vírus detectado não mudou ao longo do estudo e foi um pouco mais alta no grupo lopinavir/ritonavir;

  3. Não teve grupo placebo – justificativa, emergência dos casos;

  4. No grupo lopinavir/ritonavir, 5 pacientes não receberam nenhuma dose do medicamento, pois 3 foram a óbito em 24 horas após o começo do estudo e 2 outros porque o médico assistente se recusou a prescrever lopinavir/ritonavir.


Conclusão:

O tratamento com lopinavir/ritonavir não acelerou significativamente a melhora clínica, redução da mortalidade ou diminuição da detecção do RNA (código genético) viral em pacientes graves acometidos pela COVID-19. Portanto, estes resultados mostraram que o medicamento ainda não é considerado seguro e promissor para o tratamento da infecção pelo SARS-CoV-2, sendo necessários mais estudos para comprovar sua eficácia.


Por Marina Caçador Ayupe em 26/04/2020.



Referências:


1. Cao, B., Wang, Y., Wen, D., et al. (2020). A Trial of Lopinavir–Ritonavir in Adults Hospitalized with Severe Covid-19. New England Journal of Medicine, 1–13.

DOI: https://doi.org/10.1056/nejmoa2001282


2. AbbVie. https://www.abbvie.com.br/content/dam/abbviecorp/br/docs/Kaletra-Tab-VP.pdf


3. Grupo de Incentivo à Vida (GIV). http://giv.org.br/HIV-e-AIDS/Medicamentos/index.html



*Ilustrações realizadas pela autora via Biorender.


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