Medidas de confinamento são realmente necessárias e efetivas para evitar a propagação do vírus?

É importante ressaltar que a COVID-19 é uma doença causada por um patógeno (microrganismo causador de doença) emergente (um novo patógeno), o vírus SARS-CoV-2. Atualmente não existe vacina, nem medicamento e não existe imunidade na população. Por se tratar de um patógeno de fácil transmissão, o vírus se espalhou rapidamente para vários países em um curto período de tempo. O surto da doença foi declarado como Emergência de Saúde Pública de Interesse Internacional em 30 de janeiro de 2020 e como uma Pandemia no dia 11 de março de 2020 pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Se não existe vacina, nem tratamento e muitas pessoas têm o risco de contrair a doença porque não possuem imunidade contra o vírus, então quais as medidas necessárias para evitar a propagação desta doença de uma forma eficaz?

Na ausência de vacinas e tratamentos são adotadas as Medidas de Saúde Pública Não-Farmacêuticas como formas de controlar a propagação da doença durante uma pandemia. E no que consistem essas medidas? Existem diferentes tipos de medidas nas quais são adotadas estratégias diferentes para diminuir o contágio da população que são classificadas em medidas de contenção, mitigação e supressão:

1. Contenção: nas medidas de contenção os esforços são voltados para controlar o contágio da doença quando os números de infectados ainda são baixos, ou seja, no início de uma epidemia. Atua-se preparando e treinando equipes de saúde, rastreando a doença, através de testes diagnósticos de casos suspeitos e isolando os casos confirmados para evitar a transmissão;

2. Mitigação: quando já não é mais possível ter o controle dos casos, pois a doença já se espalhou pela comunidade (transmissão comunitária) são aplicadas as medidas de mitigação. Nesse caso, as medidas empregadas têm o objetivo de diminuir a velocidade da transmissão da doença e proteger a população de risco (idosos, portadores de doenças crônicas e com baixa imunidade). Algumas medidas de distanciamento social são empregadas, como o fechamento de escolas, universidades, lojas e restaurantes e cancelamento de eventos em geral. Há também um aumento da vigilância sanitária com medidas de saúde em pontos de entrada como portos, aeroportos e passagens de fronteiras;

3. Supressão: são adotadas medidas mais rigorosas de confinamento para interromper todas as cadeias de transmissão do vírus, como foi adotado na China por exemplo. Toda a população entra em confinamento obrigatório e são realizados testes de diagnóstico em massa para triagem dos infectados.

Como vimos, a melhor maneira de prevenir essa doença (COVID-19), na ausência de vacinas e medicamentos, é adotando medidas de confinamento, desde o isolamento de casos suspeitos e confirmados ao isolamento da população em geral. Então, vamos entender a diferença entre os tipos de confinamentos?

Existem 4 tipos de medidas de confinamento: a quarentena, o isolamento social, o distanciamento social e o bloqueio total (também chamado de contenção comunitária ou lockdown, em inglês):

1. Quarentena: consiste na restrição do movimento de pessoas que supostamente foram expostas a uma doença contagiosa, mas não estão doentes, porque não foram infectadas ou porque ainda estão no período de incubação;

2. Isolamento social: é a separação de pessoas doentes de pessoas não infectadas, para evitar a propagação do vírus. Pode ocorrer em domicílio ou em ambiente hospitalar, conforme o estado clínico da pessoa.

3. Distanciamento social: o distanciamento social tem como objetivo reduzir as interações entre pessoas em uma comunidade mais ampla, na qual os indivíduos podem ser infecciosos, mas ainda não foram identificados e, portanto, ainda não estão isolados. O distanciamento social pode ser seletivo (isolamento vertical), onde apenas os grupos de maior risco (idosos, portadores de doenças crônicas e imunossuprimidos) devem seguir as orientações de permanecer em domicílio ou pode ser ampliado (isolamento horizontal), onde medidas de isolamento são recomendadas para toda a comunidade (não se limita a um grupo específico). Com o objetivo de evitar aglomerações, são exemplos de medidas de distanciamento social ampliado: o fechamento de escolas e universidades, fechamento de mercados públicos, estímulo do trabalho em casa e o cancelamento de eventos em geral. Somente os serviços essenciais devem ser mantidos, como o funcionamento de supermercados e farmácias.

4. Bloqueio Total: é uma intervenção aplicada a toda uma comunidade, cidade ou região, projetada para reduzir interações entre pessoas. Consiste em interromper qualquer atividade por um curto período de tempo, com exceção de saídas para atividades básicas como comprar mantimentos ou remédios. Tais intervenções variam desde o distanciamento social (como cancelamento de reuniões, fechamento de escolas, trabalho em casa), o uso comunitário de máscaras faciais, até o fechamento de cidades ou áreas inteiras (cordão sanitário). Em sua vigência ninguém tem permissão para entrar ou sair do perímetro isolado.

Para exemplificar a importância das medidas de confinamento, podemos observar na ilustração abaixo que quando não há implementação dessas medidas, o vírus pode ser transmitido livremente entre um grande número de pessoas. Parte das pessoas infectadas se recuperarão da doença, mas por outro lado teremos um elevado número de óbitos (mortes), pois o número de pessoas infectadas é muito alto:

No entanto, se a maioria das pessoas praticarem medidas de confinamento, a velocidade da propagação da doença pode ser reduzida consideravelmente. Isso acontecerá porque as pessoas infectadas que adotarem o isolamento social terão menor probabilidade de transmitir o vírus para pessoas saudáveis: ficarão isoladas até que se recuperem completamente (eliminação do vírus do organismo). Já, as pessoas saudáveis que praticarem o distanciamento social correrão menores risco de serem infectadas. Dessa forma, o número de pessoas contaminadas será muito menor e consequentemente o número de óbitos também:

Além disso, quando leva-se em consideração o número total de leitos hospitalares disponíveis no sistema de saúde brasileiro em relação ao provável número de pessoas infectadas, caso não sejam adotadas as medidas de confinamento, estima-se que não será possível os hospitais comportarem tantas pessoas doentes ao mesmo tempo, o que geraria um colapso no sistema de saúde e ocasionaria um grande número de mortes por falta de atendimento hospitalar.


“Mas, e quanto tempo pode demorar esse período de confinamento?”


É difícil prever quanto tempo poderá durar esse período. Tudo dependerá das estratégias políticas de supressão da transmissão da doença que serão adotadas pelo governo. Um estudo de cenários e projeções realizado pelo Imperial College London, no Reino Unido, mostrou que uma estratégia política mínima que deveria ser implementada para uma supressão efetiva da transmissão viral seria combinando o distanciamento social ampliado com isolamentos de casos confirmados da doença e o fechamento de escolas e universidades. E essas medidas precisariam ser mantidas até a existência de uma vacina em quantidade suficiente para imunizar toda a população (o que poderia durar 18 meses ou mais). Não adotando essa medida mínima, o número de infectados e de mortes seria elevadíssimo, em um curto período de tempo. É importante ressaltar que essa projeção foi feita para países desenvolvidos e em países em desenvolvimento e subdesenvolvidos os efeitos da pandemia podem ser ainda mais críticos.

Sabendo que um período de supressão a longo prazo é economicamente inviável em muitos países, o estudo mostra que adotando essa estratégia por um período relativamente curto, de 3 meses, o número de mortes poderia ser reduzido pela metade e a necessidade médico-hospitalar poderia ser reduzida em até dois terços. No entanto, estaríamos apenas retardando o pico para o final do ano, pois a transmissão viral voltaria a aumentar quando as medidas de confinamento encerrassem.

O fato é que, quanto mais intensivas forem as medidas de confinamento, maiores são as probabilidades de sucesso na supressão da transmissão viral, assim como ocorreu na China, conforme mostra o estudo de Moritz Kraemer e colaboradores, publicado na revista Science.

Além disso, as intervenções de saúde pública não-farmacêuticas, historicamente já demonstraram que foram fundamentais para conter pandemias anteriores, como o exemplo da gripe espanhola que ocorreu entre 1918 e 1919.


Por Déborah Giovanna Cantarini em 13/04/2020.

Fontes:


1) MINISTÉRIO DA SAÚDE: https://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2020/fevereiro/13/plano-contingencia-coronavirus-COVID19.pdf


2) ANVISA:

http://portal.anvisa.gov.br/documents/33852/271858/Nota+T%C3%A9cnica+n+04-2020+GVIMS-GGTES-ANVISA/ab598660-3de4-4f14-8e6f-b9341c196b28


3) Wilder-Smith A, Freedman DO. Isolation, quarantine, social distancing and community containment: pivotal role for old-style public health measures in the novel coronavirus (2019-nCoV) outbreak. J Travel Med. 2020 Mar 13;27(2). pii: taaa020. DOI: https://doi.org/10.1093/jtm/taaa020.


4) Ferguson NM, Laydon D, Nedjati-Gilani G, Imai N, Ainslie K, Baguelin M, et al. Impact of non-pharmaceutical interventions (NPIs) to reduce COVID-19 mortality and healthcare demand. Imperial College COVID-19 Response Team. London; 2020 Mar 16. DOI: https://doi.org/10.25561/77482.


5) World Health Organization (WHO): Considerations for quarantine of individuals in the context of containment for coronavirus disease (COVID-19): interim guidance, 19 march 2020. Geneva; 2020 Mar 19. 4 f. Disponível em: 

https://apps.who.int/iris/handle/10665/331497.


6) KRAEMER, MUG et al. The effect of human mobility and control measures on the COVID-19 epidemic in China. Science, 25 Mar 2020: eabb4218. DOI: https://doi.org/10.1126/science.abb4218.


7) Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC - EUA):

https://www.cdc.gov/infectioncontrol/pdf/guidelines/isolation-guidelines-H.pdf


*Ilustrações realizadas pela autora via Biorender.


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