COVID-19: uma doença só, mas vários sistemas afetados!

Quando pensamos nos danos causados em nosso corpo pelas formas graves da COVID-19, comumente imaginamos as lesões pulmonares em decorrência da infecção do órgão pelo SARS-CoV-2, bem como, um conjunto de sinais e sintomas derivados do comprometimento desse tecido. De fato, um dos principais sistemas afetados pelas formas mais severas da doença, é o sistema respiratório. No entanto, o vírus ou a resposta do corpo a ele (resposta imunológica), pode danificar muitos outros órgãos e sistemas para além do trato respiratório [3, 4, 10]. Confiram conosco um resumo do que cientistas e profissionais da saúde já descobriram até o momento!


1. Começando, pelo começo: os pulmões

A rota de entrada do novo coronavírus em nosso organismo é através da infecção do sistema respiratório. Isso, em decorrência da alta expressão de uma proteína chamada ACE2 nesse sistema. Essa proteína é apontada por diversas pesquisas [3, 4, 10] como a principal porta de entrada do SARS-CoV-2 em nossas células. Dessa forma, seja devido a reprodução do vírus em nossos pulmões ou pela resposta imune contra ele, pode ocorrer um extenso dano nesse órgão de modo a comprometer sua função essencial de captação de oxigênio e, com isso, colocando em risco o funcionamento de todo o organismo e, consequentemente, a vida do indivíduo acometido pela COVID-19. Alguns dos sintomas pulmonares podem ser: tosse seca, produção de expectoração, fadiga e dispneia (dificuldade de respirar, respiração ofegante) [3, 4].


2. Coração e vasos sanguíneos

Assim como nossos pulmões, nosso sistema circulatório possui uma significativa presença da proteína ACE2. Dessa forma, utilizando essa mesma “porta de entrada” o novo coronavírus pode infectar as células do coração e dos vasos sanguíneos. Com isso, o vírus pode promover um conjunto de manifestações cardíacas e circulatórias perigosas, dentre elas, a formação de coágulos sanguíneos, tromboembolismo pulmonar, miocardite (inflamação do coração), arritmias, insuficiência cardíaca e ataque cardíaco [3, 4]. Entre os pacientes com COVID-19, comorbidades cardiovasculares pré-existentes, incluindo hipertensão, diabetes, obesidades e especialmente cardiopatias, são fatores de maior risco para o acometimento do sistema circulatório na COVID-19 [3].


3. Fígado


Até metade dos pacientes hospitalizados por COVID-19 apresentam sinais de danos no fígado [7, 10]. No entanto, esses danos hepáticos podem estar mais relacionados a uma resposta imune exacerbada e sistêmica contra o vírus e/ou em decorrência da utilização de diversos medicamentos de maneira concomitante, necessários para tratar os sintomas da doença, do que devido a uma ação direta do SARS-CoV-2 nesse órgão. Independentemente da causa, alguns estudos estimam que 1 em cada 5 pacientes podem desenvolver anormalidades hepáticas, sobretudo, pacientes com as formas severas da COVID-19 [7].




4. Rins

Lesões nos rins são comuns em casos graves da COVID-19 e aumentam a probabilidade de morte. Em um estudo realizado na cidade de Nova Iorque (EUA), a insuficiência renal aguda foi observada em 37% dos pacientes hospitalizados, sendo que 14% deles precisaram de diálise [5]. O SARS-CoV-2 pode danificar os rins diretamente e/ou a insuficiência renal pode estar ligada a outras manifestações clínicas da doença como, por exemplo, a queda acentuada da pressão sanguínea observada em alguns pacientes com as formas graves da COVID-19 [10].


5. Trato Gastrointestinal

A incidência de sinais e sintomas gastrointestinais varia de 12% a 61% dos com COVID-19 [4]. Os sintomas mais comuns são: anorexia (perda de apetite), diarreia, náuseas e/ou vômitos e dor abdominal [3, 4]. Diversos estudos apontam no sentido de que o novo coronavírus é capaz de infectar células que compõem o trato gastrointestinal, sobretudo, os intestinos [3, 4, 11]. Aproximadamente 10% dos pacientes com COVID-19 podem apresentar apenas os sintomas gastrointestinais sem manifestar os sintomas respiratórios [7]. Pacientes que apresentam como sintomas iniciais manifestações gastrointestinais comumente possuem diagnóstico tardio de COVID-19 e tendência a progredir para as formas críticas da doença [7].


6. Cérebro

Uma parcela dos pacientes com COVID-19 podem apresentar sinais e sintomas neurológicos variando de leves a graves como, por exemplo, dores de cabeça, tontura, confusão mental, perda de memória, encefalite (inflamação cerebral), convulsões e, até mesmo, derrames [3, 4, 11]. Apesar de diversos estudos apontarem que a infecção direta das células que compõem o tecido nervoso pelo SARS-CoV-2 seja uma possibilidade concreta [2, 3, 4, 10], a rota de entrada do novo coronavírus no cérebro ainda é discutida e vem sendo estudada pelos cientistas, assim como, quais dos sinais e sintomas estão diretamente ligados a infecção do sistema nervoso pelo SARS-CoV-2 e quais são subjacentes ao acometimento de outros sistemas pela COVID-19.


7. Sistema gustativo, olfativo e olhos:

Pesquisas realizadas na Europa foram capazes de observar altas incidências de pacientes com COVID-19 que apresentaram perda do olfato (anosmia) e paladar (ageusia), encontrando índices de até 86% e 88%, respectivamente [4]. Os mecanismos biológicos envolvidos com a manifestação desses sintomas ainda estão sendo melhor investigados, antes de conclusões definitivas [1, 6, 9]. Pacientes com COVID-19 podem desenvolver, também, sintomas oculares associados à infecção pelo SARS-CoV-2 como, por exemplo, epífora (lacrimejamento), congestão conjuntival, lesões na retina e conjuntivite (inflamação da conjuntiva) [3, 4].


8. Pele

Aparentemente, até mesmo o maior órgão do corpo humano pode ser afetado pela COVID-19. Isso porque, alguns estudos relatam que até 20% dos pacientes com a doença podem apresentar anormalidades cutâneas [3]. Anormalidades essas, que podem variar de erupções cutâneas eritematosas, lesões urticariformes e/ou vesiculares até lesões necróticas, sobretudo, nas formas mais severas da doença [3, 4]. No entanto, ainda não está claro se essas manifestações cutâneas são causadas diretamente pela infecção do vírus na pele ou secundárias à resposta imune do hospedeiro, ou ainda, em decorrência da administração de alguns medicamentos [3].


Como podemos ver até aqui, a COVID-19 é uma doença muito complexa, multifatorial, que pode afetar vários órgãos e sistemas para além de nossos pulmões, sobretudo nas formas mais sérias da doença, e cuja biologia ainda vem sendo melhor estudada pelos cientistas. Ainda restam algumas dúvidas com relação a natureza da doença e os mecanismos pelos os quais ela pode afetar diferentemente nossos órgãos e como e por quais motivos pode variar tanto de um indivíduo para outro. A única certeza que possuímos até o momento, é que a prevenção é a melhor alternativa e ferramenta contra o novo coronavírus! Por esse motivo, devemos manter os hábitos de higiene e proteção individual (utilização de álcool em gel e máscara) e coletiva (distanciamento social), para que assim, possamos conter o avanço do SARS-CoV-2 e o surgimento de novas ondas de pessoas infectadas e mortas em nosso país!


Por Renato da Silva Cardoso em 03/11/2020.


Referências:


[1] BRANN, David H. et al. Non-neuronal expression of SARS-CoV-2 entry genes in the olfactory system suggests mechanisms underlying COVID-19-associated anosmia. Science Advances, v. 6, n. 31, p. 5801-5803, 24 jul. 2020. American Association for the Advancement of Science (AAAS). doi: http://dx.doi.org/10.1126/sciadv.abc5801;


[2] CRUNFLI, Fernanda et al. SARS-CoV-2 infects brain astrocytes of COVID-19 patients and impairs neuronal viability. Medrxiv Preprint, [S.L.], p. 1-43, 13 out. 2020. Cold Spring Harbor Laboratory. doi: http://dx.doi.org/10.1101/2020.10.09.20207464;


[3] GAVRIATOPOULOU, Maria et al. Organ-specific manifestations of COVID-19 infection. Clinical And Experimental Medicine, v. 20, n. 4, p. 493-506, 27 jul. 2020. Springer Science and Business Media LLC. doi: http://dx.doi.org/10.1007/s10238-020-00648-x;


[4] GUPTA, Aakriti et al. Extrapulmonary manifestations of COVID-19. Nature Medicine, v. 26, n. 7, p. 1017-1032, jul. 2020. Springer Science and Business Media LLC. doi: http://dx.doi.org/10.1038/s41591-020-0968-3;


[5] HIRSCH, Jamie S. et al. Acute kidney injury in patients hospitalized with COVID-19. Kidney International, v. 98, n. 1, p. 209-218, jul. 2020. Elsevier BV. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.kint.2020.05.006;


[6] LUERS, Jan C et al. Olfactory and Gustatory Dysfunction in Coronavirus Disease 2019 (COVID-19). Clinical Infectious Diseases, p. 1-4. Oxford University Press (OUP). doi: http://dx.doi.org/10.1093/cid/ciaa525;


[7] MAO, Ren et al. Manifestations and prognosis of gastrointestinal and liver involvement in patients with COVID-19: a systematic review and meta-analysis. The Lancet Gastroenterology & Hepatology, v. 5, n. 7, p. 667-678, jul. 2020. Elsevier BV. doi: http://dx.doi.org/10.1016/s2468-1253(20)30126-6;


[8] ROBBA, Chiara et al. Multiple organ dysfunction in SARS-CoV-2: mods-cov-2. Expert Review Of Respiratory Medicine, v. 14, n. 9, p. 865-868, 22 jun. 2020. Informa UK Limited. doi: http://dx.doi.org/10.1080/17476348.2020.1778470;


[9] TONG, Jane Y. et al. The Prevalence of Olfactory and Gustatory Dysfunction in COVID-19 Patients: a systematic review and meta-analysis. Otolaryngology–Head And Neck Surgery, [S.L.], v. 163, n. 1, p. 3-11, 5 maio 2020. SAGE Publications. doi: http://dx.doi.org/10.1177/0194599820926473;


[10] WADMAN, Meredith. How does coronavirus kill? Clinicians trace a ferocious rampage through the body, from brain to toes. Science, p. 1-4, 17 abr. 2020. American Association for the Advancement of Science (AAAS). doi: http://dx.doi.org/10.1126/science.abc3208;


[11] HANG, Yuhao et al. New understanding of the damage of SARS-CoV-2 infection outside the respiratory system. Biomedicine & Pharmacotherapy, v. 127, p. 110195-110120, jul. 2020. Elsevier BV. doi: http://dx.doi.org/10.1016/j.biopha.2020.110195;

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